Seja bem vindo(a)

sexta-feira, 14 de agosto de 2015

A DOR QUE DÓI MAIS

Saudade e dor

A dor que dói mais

Trancar o dedo numa porta dói.
Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói. Um tapa,
um soco, um pontapé, doem. Dói
bater a cabeça na quina da mesa,
dói morder a língua, dói cólica,
cárie e pedra no rim. Mas o que
mais dói é saudade.

Saudade de um irmão que mora
longe. Saudade de uma cachoeira
da infância. Saudade do gosto de
uma fruta que não se encontra
mais. Saudade do pai que já
morreu. Saudade de um amigo
imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade. Saudade
da gente mesmo, quando se tinha
mais audácia e menos cabelos
brancos. Doem essas saudades
todas.

Mas a saudade mais dolorida é a
saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos
beijos. Saudade da presença, e até
da ausência consentida. Você
podia ficar na sala e ele no
quarto, sem se verem, mas
sabiam-se lá. Você podia ir para o
aeroporto e ele para o dentista,
mas sabiam-se onde. Você podia
ficar o dia sem vê-lo, ele o dia
sem vê-la, mas sabiam-se
amanhã. Mas quando o amor de
um acaba, ao outro sobra uma
saudade que ninguém sabe como
deter.

Saudade é não saber. Não saber
mais se ele continua se gripando
no inverno. Não saber mais se ela
continua clareando o cabelo. Não
saber se ele ainda usa a camisa
que você deu. Não saber se ela foi
na consulta com o dermatologista
como prometeu. Não saber se ele
tem comido frango de padaria, se
ela tem assistido as aulas de
inglês, se ele aprendeu a entrar na
Internet, se ela aprendeu a
estacionar entre dois carros, se
ele continua fumando Carlton, se
ela continua preferindo Pepsi, se
ele continua sorrindo, se ela
continua dançando, se ele
continua pescando, se ela
continua lhe amando.
Saudade é não saber. Não saber o
que fazer com os dias que ficaram
mais compridos, não saber como
encontrar tarefas que lhe cessem
o pensamento, não saber como
frear as lágrimas diante de uma
música, não saber como vencer a
dor de um silêncio que nada
preenche.

Saudade é não querer saber. Não
querer saber se ele está com
outra, se ela está feliz, se ele está
mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais querer
saber de quem se ama, e ainda
assim, doer.

Sem comentários: