sexta-feira, 31 de julho de 2015
Hoje em dia dizem que não beber é ser palhaço
Dia desses eu estava em um lugar
com outras cinco ou seis pessoas.
Alguém trouxe vinho, outro trouxe
cerveja e começaram a encher os
copos.
Perguntaram o que eu
preferia, e eu disse que não
preferia nada, porque eu não
bebia.
E eis que:
Pessoa 1 – Como assim você não
bebe?
Eu – É, não bebo
Pessoa 2 – Parou?
Eu – Não, nunca bebi.
Pessoa 1 – Nada, nada? Nunca
bebeu nada?
Eu – Já provei quando era novo,
mas não bebo.
Silêncio sepulcral.
Pessoa 3 – Não bebe nunca?
Eu – Não, nunca.
.
Pessoa 2 – Você fuma muito?
Eu – Eu não fumo
Pessoa 3 indignadissima – Mas
Cigarro tu fuma, né?
Eu – Não
Pessoa 3 já impaciente – Cheira?
Toma Rivotril?
Eu – Não, e não. De droga só bebo
Fanta Uva e ultimamente tenho
visto uns jogos do Fluminense.
Minha piada sensacional foi
prontamente ignorada, e o
interrogatório continuou:
Pessoa 1 – Mas como você
consegue não beber?
Eu – Não bebendo. Não é tipo não
respirar ou não comer, eu só não
gosto.
.
Pessoa 2 rindo – Mas você faz o
que então, se você não bebe?
Eu grosso e já meio de saco cheio
– Não fico por aí enchendo a cara
pra me enturmar nem fumando
baseadinho pra me sentir “da
galera”. É isso que eu faço.
E depois da minha grosseria, o
papo acabou. O que eu achei uma
pena porque eu estava à beira do
meu famosíssimo discurso anti-
drogas. Na verdade eu não sou
panfletário contra as drogas, eu
sou indiferente. Quer fumar,
fume, quer beber, beba, o
problema não é meu. Mas não
venha encher o meu saco com
isso, simples assim. E eu não
bebo porque realmente não gosto,
assim como tem gente que não
gosta de alface, tem gente que
não gosta de refrigerante, e tem
até gente que – pasmem – não
gosta de mulher. E eu não fico
questionando isso.
Quando eu encontro um gay eu
não fico perguntando: “Nossa,
como você não gosta de mulher?
Como você consegue não gostar
de mulher?”, tampouco interrogo
os vegetarianos sobre “Meu Deus,
o que você faz da vida se você não
come carne?”. Eu só quero que a
minha preferência, que é não
beber, seja respeitada como eu
respeito as outras preferências. E
às vezes tenho que ser grosseiro e
dizer que não preciso de alguma
coisa pra alterar meu estado de
consciência só pra “ficar mais
legal” ou para “abrir a minha
mente”.
E sem querer fazer papel de vítima
nem nada disso, mas essa é uma
discussão que eu raramente vejo
por aí. Falam que a sociedade
oprime mulheres, oprime gays,
oprime crianças, mas e quanto a
essa ditadura velada das drogas?
De deixar “de fora da turminha”
quem não usa nenhuma droga –
lícita ou ilícita? O pior é ouvir esse
papo de “uau, que absurdo você
não beber”, e ter que ser polido e
não falar “Nossa, que absurdo
você ser um imbecil completo”. É
difícil manter a educação.
Geralmente eu faço o papel de
grosso anti-drogas que sai
chamando todo mundo de
maconheiro e viciado. É a minha
defesa contra essa babaquice de
achar que eu sou um completo
idiota só porque não bebo.
Uma tática que eu usava e uso às
vezes só pra deixar esses imbecis
culpados é dizer que eu sou ex-
dependente químico e que meu
pai é alcoólatra e batia em mim
quando criança, e mostro uma
cicatriz que tenho na sobrancelha
dizendo que isso foi ele que me
atirou um copo. A conversa acaba
na mesma hora. Mas eu queria,
sinceramente, saber como é que
pessoas esclarecidas, que
deveriam ser cultas e estudadas,
engolem com tanta facilidade essa
baboseira de que drogas são
legais e quem não usa drogas ou
não bebe não é legal. Quem
define o que “não é legal”? Não
tô dizendo que não sejam, mas
isso faz tanto sentido quanto dizer
que arroz é legal, ou que maizena
é legal, e que se você não come
arroz ou maizena você é um
idiota.
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